Photographer
ALDO BERNARDIS
Bahia | Brazil
A noite no sertão é um estáculo a parte.
Um céu incrivelmente iluminado pelas estrelas.
A imagem, uma árvore isolada, cercada pelo encanto das estrelas.
Here are all the photographers who have participated in the contests and their photos that have been awarded.
Photographer
ALDO BERNARDIS
Bahia | Brazil
A noite no sertão é um estáculo a parte.
Um céu incrivelmente iluminado pelas estrelas.
A imagem, uma árvore isolada, cercada pelo encanto das estrelas.
Photographer
ALDO BERNARDIS
Bahia | Brazil
Estava frio naquele dia. Frio de verdade. A água parada, imóvel, cortada apenas pelo barco. Dois pescadores, fazendo o que sempre fizeram, do jeito que aprenderam a fazer. Sem pose, sem espetáculo. Só a vida acontecendo, como todos os dias.
O que me atraiu foi o céu. Ele estava ali em cima, mas também estava ali embaixo.
O reflexo na água era tão limpo que parecia que o mundo tinha virado ao contrário. Por alguns segundos, fiquei só olhando, tentando entender essa calma toda.
Quando decidi fotografar eu ví o quão forte era essa imagem. A composição veio sozinha, quase sem esforço. Às vezes a fotografia é isso: você não cria nada, só respeita o que já está diante de você e segue clicando.
Esses são, os PESCADORES DOS CÉUS.
Photographer
Alexandre Grand
Rio de Janeiro | Brazil
Houve um tempo em que a comunicação exigia presença, paciência e até um certo ritual. A época dos orelhões. Eles estavam espalhados pelas calçadas, nas praças, nos corredores das rodoviárias, como pequenas conchas coloridas guardando vozes. Para fazer uma ligação, não bastava vontade. Era preciso ter fichas telefônicas no bolso.
As fichas eram pequenas, de plástico, muitas vezes colecionáveis, com imagens de campanhas, artistas, paisagens e datas comemorativas. Circulavam de mão em mão como uma moeda paralela. Quem tinha ficha, tinha voz. Quem não tinha, pedia emprestado a um desconhecido com a mesma naturalidade com que se pede as horas.
E o mais curioso era que o orelhão não fazia distinção. Rico ou pobre, todos usavam o mesmo aparelho, na mesma fila, debaixo do mesmo sol. Executivos de terno aguardavam ao lado de trabalhadores com uniforme sujo de graxa. Estudantes, donas de casa, viajantes, todos igualmente dependentes daqueles minutos contados que custavam uma ficha.
Havia também uma sensação de segurança que hoje soa quase ingênua. A violência ainda não havia ocupado esses espaços de forma tão agressiva. Podia-se atravessar a cidade para fazer uma ligação importante sem o medo constante de ser assaltado. Crianças ligavam para casa sozinhas. Jovens marcavam encontros. Mães tranquilizavam o coração ao ouvir a voz do outro lado da linha.
As conversas eram mais curtas, mas talvez mais intensas. Cada ficha exigia objetividade, mas também carregava urgência e afeto. Não existia áudio de WhatsApp, nem chamada perdida. Existia o “alô” ansioso, o silêncio da ligação completando, o coração acelerado enquanto a voz finalmente chegava.
O orelhão era mais do que tecnologia. Era ponto de encontro, espaço público de intimidade, ponte entre distâncias. Um tempo em que falar exigia sair de casa, olhar o mundo ao redor e, mesmo assim, conseguir se conectar.
Photographer
Alexandre Grand
Rio de Janeiro | Brazil
Podemos considerar um retrato uma simples foto dos pés? Eu acredito que sim. Porque o retrato não é apenas a representação visual do rosto de alguém. Retrato é linguagem. É narrativa. É presença.
Um retrato verdadeiro conta a história de uma pessoa, e essa história pode ser revelada nos detalhes mais sutis. Em uma imagem como essa, é possível acessar camadas profundas de informação. A postura, a forma como os pés tocam o chão, o tipo de calçado, o desgaste do tempo, a relação com o espaço ao redor. Tudo comunica. Tudo fala.
A fotografia é incrivelmente múltipla em suas facetas. Uma única imagem pode descrever uma situação, sugerir uma emoção, provocar reflexão, construir uma crítica social, despertar memória. Seu poder está justamente nessa capacidade de ir além do óbvio, além do literal.
Voltando a esta foto, percebemos que não é apenas sobre pés. É sobre alguém. Sobre uma presença humana que, mesmo sem rosto, se revela. Através desses detalhes, podemos imaginar quem é essa pessoa, de onde vem, como caminha pelo mundo. E é aí que a fotografia cumpre seu papel mais profundo: transformar fragmentos em história e silêncio em significado.
Photographer
Alexandre Grand
Rio de Janeiro | Brazil
No começo, as pessoas pensavam que ele fazia parte da praça.
Sentado no banco de concreto, sempre na mesma posição, mãos repousando sobre os joelhos, olhar fixo em algum ponto invisível do chão, ele parecia imóvel demais para ser apenas um homem. Turistas passavam, moradores cruzavam o espaço apressados, crianças brincavam ao redor, e ele continuava ali, intocado pelo movimento do mundo.
Alguns chegaram a brincar:
— Deve ser uma estátua nova.
Mas não havia placa. Não havia nome. Não havia explicação.
Ele chegava cedo, antes da praça acordar, e partia apenas quando a luz começava a desaparecer entre os prédios. Nunca levava livros, nunca mexia no celular, nunca conversava com ninguém. Apenas sentava. E ficava. Como se aquele banco fosse o último lugar que ainda lhe pertencesse.
Poucos sabiam sua história.
Diziam que, anos atrás, ele esperava alguém naquele mesmo ponto. Todos os dias. Sempre no mesmo horário. Um encontro que nunca aconteceu. Um amor interrompido por uma despedida mal explicada, por uma promessa quebrada, por um tempo que passou rápido demais para ser consertado.
Com o tempo, a espera deixou de ser por alguém.
Virou hábito.
Virou abrigo.
Virou identidade.
Sentado ali, ele observava o mundo sem interferir. Via casais se formarem e se desfazerem. Via crianças crescerem. Via idosos desaparecerem. Via a cidade mudar de ritmo, de roupa, de linguagem. E ele permanecia, como uma âncora silenciosa em meio ao fluxo.
Parecia uma estátua porque já não tentava se mover contra a vida.
Parecia uma estátua porque aprendera a resistir pelo silêncio.
Parecia uma estátua porque, às vezes, quem sente demais precisa parecer pedra para não desabar.
Mas bastava olhar com atenção para perceber o detalhe que o entregava:
um leve movimento dos dedos,
um piscar de olhos demorado,
um suspiro quase invisível.
Ele não era uma escultura.
Era apenas um homem que escolheu ficar.
Enquanto todo o resto do mundo escolheu passar.
Photographer
Alexandre Grand
Rio de Janeiro | Brazil
O mundo gira acima de nossas cabeças.
De baixo para cima, o olhar encontra primeiro o céu claro, depois as correntes tensionadas pelo movimento, e então os corpos suspensos, entregues ao ar como se por alguns segundos fosse possível esquecer o peso da gravidade. Pernas balançam, tênis gastos apontam para o infinito, mãos seguram firme aquilo que ainda mantém algum controle enquanto tudo ao redor gira.
O brinquedo colorido ocupa parte do quadro como um teto de memórias. Pinturas antigas, tons vibrantes, figuras quase míticas observam em silêncio a coreografia humana que acontece abaixo. É como se o passado e o presente se encontrassem ali, na mesma engrenagem.
Cada cadeira carrega uma história invisível. Há quem ria alto. Há quem se cale. Há quem pense na vida enquanto o vento atravessa o rosto. Mesmo sem ver os rostos, sentimos as emoções. A fotografia revela que não é preciso mostrar tudo para dizer muito.
O movimento sugere liberdade, mas também fragilidade. Estamos todos pendurados por fios, confiando em algo que não controlamos completamente, aceitando o giro, o risco, a vertigem. E ainda assim, seguimos. Rindo. Resistindo. Vivendo.
A imagem transforma um simples parque de diversões em metáfora. Do tempo que passa. Da infância que insiste em sobreviver. Da coragem de se lançar ao vazio, mesmo quando não há garantias.
Um instante suspenso entre o céu e a terra.
Um segundo de poesia em pleno movimento.
Photographer
Dantchesco Cardoso
São Paulo | Brazil
Quando pedi que parassem por um minuto, não imaginei que iam me entregar uma cena inteira: caixas abertas do Habibs, um doguinho, uma das irmãs de branco que ainda oscilava entre ser criança e ser a próxima debutante.
Não era para ser bonito — era para ser verdadeiro.
Eles tinham acabado de sair de uma festa na noite passada, tudo corrido, e aceitaram sentar nas escadarias porque ninguém tinha tomado sequer café para aquela manhã de ensaio.
A mãe, minutos antes ela havia me dito baixinho que tinha medo de errar no discurso da festa, o irmão ao centro enrolava a esfiha com as mãos como se fosse um pãozinho quentinho.
Era o primo que depois de contar um segredo de criança fez todo mundo rir alto.
Dois rapazes ao fundo trocavam olhares sobre uma recordação da noite anterior; o cachorro, sem cerimônia, farejava as lembranças dos que passavam.
Eles não me pediram para mostrar o que somos quando ninguém exige perfeição.
Expliquei que a melhor foto é aquela que nos pega na exatidão do cotidiano — quando a vida ainda está sendo vivida, não encenada.
Então mandei: “Comam. Riam. Se preocupem menos com a postura.”
E deixei a câmera responsável por registrar a honestidade.
O que ficou na foto não é uma pose; é um contrato silencioso entre pessoas que se gostam e aceitam a bagunça do amor: nervos, fome, vergonha, orgulho e a escolha de ficar juntos no meio de tudo isso. Guardei esse minuto porque, depois, cada um voltou à personagem da festa — mas ali, nas escadas, apareceram reais.
Essa imagem é a prova de que a beleza mais humana é feita de intervalos — das pausas entre os discursos, das mordidas apressadas e dos sorrisos que vêm sem aviso.
Photographer
Eduardo Neri
Paraná | Brazil
Heróis...
Centenas de lápides alinhadas, nomes gravados em pedra. O Silêncio. Cada uma delas foi alguém:
Um filho.
Um pai.
Um irmão.
Um avô que nunca voltou para casa.
Esses homens não buscavam glória, foram lançados a um dos capítulos mais sombrios da humanidade para enfrentar a tirania, o ódio e a crueldade de quem acreditava ter o direito de decidir quem merecia viver. O mundo se levantou, criou resistência, escolheu lutar pelo bem comum. Mas o preço foi alto demais. Entre essas lápides estão sonhos interrompidos, famílias destruídas, gerações inteiras que nunca existiram. Histórias que não tiveram continuidade, amores que ficaram pela metade.
A guerra não cria heróis por escolha.
Ela os cria por necessidade.
E muitos deles ficaram pelo caminho, oferecendo a própria vida para que outros pudessem viver em liberdade.
Essa imagem é pesada porque carrega dor, mas também carrega memória. Um lembrete de até onde a humanidade pode ir quando o ódio vence a razão, e de quão alto é o custo para contê-lo.
Aqui não há vitória.
Há consequência.
Olhar para essa fotografia é entender que o mal é real, que a crueldade é possível, e que esquecer é o primeiro passo para repetir.
Essas lápides não pedem aplausos.
Pedem lembrança.
Respeito.
E a responsabilidade de jamais permitir que tamanha tragédia volte a se tornar aceitável.
Porque cada nome ali é uma vida que não deveria ter sido perdida, e cada silêncio é um pedido para que a história não seja esquecida.
Photographer
Eduardo Neri
Paraná | Brazil
Helena, simples assim
15 anos, um número que, para muitos, significa festa, vestido, música e celebração.
Mas ali, naquele instante, significava muito mais. A mão da Helena apertada na mão da mãe durante a oração não era apenas um gesto.
Era um pacto. Era a soma de noites sem dormir, de medos silenciosos, de perguntas sem resposta e de uma coragem construída dia após dia.
No braço da mãe, um coração marcado pelo cromossomo 21.
Não como um símbolo de diferença,
mas como um selo de amor absoluto.
Um amor que enfrentou o desconhecido, o preconceito, os olhares tortos, as palavras que ferem — muitas vezes ditas sem que ninguém perceba.
Foram quinze anos de incertezas,
mas também de pequenas e grandes vitórias.
De aprendizados que só quem ama profundamente conhece.
De uma mãe que nunca soltou a mão.
De uma filha que ensinou, sem perceber, o verdadeiro significado de força.
Aquela oração carregava passado, presente e futuro.
A transição da Helena menina para a Helena mulher.
O reconhecimento de tudo o que já foi vencido
e a certeza de que a caminhada continua.
Porque o cuidado não termina.
O amor não se aposenta.
A busca pelo bem-estar da pequena — que agora cresce — será eterna.
Naquele momento, não havia fragilidade.
Havia vitória.
Havia fé.
Havia duas almas ligadas por algo que vai além do sangue:
um amor que não se mede, não se explica e não se limita.
Helena não é apenas uma menina de 15 anos.
Ela é história.
Ela é conquista.
Ela é futuro.
E aquela mão segurada com força diz tudo:
elas chegaram até aqui.
E seguirão juntas, sempre.
Photographer
Eduardo Neri
Paraná | Brazil
O vírus que parou o mundo...
A câmera nos olhos.
O olhar pronto.
O coração disposto.
Mas à frente… uma grade invisível.
Não era falta de vontade.
Não era falta de amor pela fotografia.
Era um vírus.
Um silêncio imposto.
Um mundo que parou sem pedir permissão.
Do outro lado da lente, não estavam casamentos, festas ou abraços.
Estava a ausência.
O vazio.
A impossibilidade de eternizar aquilo que dá sentido à profissão:
a alegria, o amor, as pessoas.
A pandemia não parou apenas eventos.
Ela paralisou histórias.
Destruiu agendas.
Silenciou risos.
E deixou um setor inteiro à margem, invisível, esquecido.
A grade à frente do fotógrafo não é física.
É emocional.
É econômica.
É humana.
Porque quem vive de eternizar momentos
não sabe existir longe deles.
Mesmo assim, a câmera permanece erguida.
O olhar segue atento.
A fé resiste.
Porque fotografar nunca foi só apertar um botão.
É estar presente.
É sentir.
É contar histórias que merecem ser lembradas.
E mesmo quando o mundo fechou as portas,
o fotógrafo permaneceu ali, esperando.
Acreditando que um dia a grade cairia.
E que o amor, como sempre, voltaria a vencer o caos.
Essa foto não fala de pausa.
Fala de resistência.
Photographer
Eduardo Neri
Paraná | Brazil
O amor, só precisa EXISTIR
Em 2020, o mundo parou.
Planos foram adiados, abraços proibidos, sonhos colocados em espera.
O que antes era expectativa virou incerteza. O que era festa virou silêncio.
O casamento deles também sentiu o peso desse tempo.
Não haveria salão cheio, nem amigos por perto, nem os olhares emocionados dividindo o mesmo espaço.
A pandemia tirou o direito de celebrar como sempre se sonhou.
Mas não tirou o essencial.
Com fé, coragem e muita oração, eles decidiram seguir.
Mesmo sem plateia física, sem o calor dos abraços, disseram “SIM”.
Diante de uma câmera, de uma TV ligada, de corações espalhados em casas diferentes — mas profundamente conectados.
O altar foi simples.
Os convidados estavam distantes.
Mas o amor… esse era imenso.
Cada tela acesa carregava lágrimas, sorrisos contidos, mãos dadas à distância.
Em meio ao lockdown, nasceu um casamento que provou que a alegria não depende de presença física,
mas de propósito, entrega e fé.
Eles não casaram apesar da dificuldade.
Casaram por causa dela.
Porque entenderam que amar também é permanecer firme quando tudo ao redor desmorona.
E assim, em um dos períodos mais difíceis da nossa história,
o amor venceu o medo,
a fé venceu a incerteza,
e a alegria encontrou seu caminho — mesmo longe, mesmo diferente, mesmo improvável.
Porque quando é verdadeiro,
o amor não precisa de multidão.
Ele só precisa existir.
Photographer
Eduardo Neri
Paraná | Brazil
O mundo corre.
E não permite parar.
Tudo é urgente.
Tudo é meta.
Tudo é número, alcance, conexão
mas cada vez menos presença.
Vivemos diante de telas.
O olhar baixo, os dedos rápidos,
a mente sempre em outro lugar.
Conectados com o mundo inteiro,
desconectados de quem está ao lado.
O passado ficou para trás com seus abraços longos,
conversas sem pressa,
olhos que se encontravam sem a necessidade de registro.
Hoje, o silêncio divide espaço com notificações,
e a validação vem em forma de curtidas.
O recado é claro: não pare.
Produza.
Mostre.
Apareça.
Mesmo que isso custe o que somos.
A comunidade virou concorrência.
O encontro virou postagem.
A vida virou vitrine.
Cada um por si,
frente a uma tela,
tentando provar algo para um mundo que nunca se satisfaz.
O ego cresce,
o afeto encolhe.
Essa foto não fala de tecnologia.
Ela fala da ausência.
Da falta de tempo para sentir.
Da dificuldade de simplesmente existir sem precisar performar.
Talvez o maior ato de resistência hoje
seja desacelerar.
Olhar nos olhos.
Ouvir sem pressa.
Abraçar sem postar.
Porque viver em comunidade não é tendência.
É essência.
E enquanto o mundo grita para seguir em frente a qualquer custo,
essa imagem sussurra uma pergunta incômoda:
Estamos realmente vivendo…
ou apenas passando o dedo pela vida na contra-mão daquilo que nascemos pra ser: COMUNIDADE?
Photographer
Fernanda Toigo
São Paulo | Brazil
Aniversário infantil em casa, festa pequena, íntima.
(A típica só um bolinho).
Enquanto a protagonista corria com os amigos de um lado para o outro no apartamento, olho para traz, a procura do que não estou vendo.
De forma instintiva registro o carinho entre um filho e seu pai.
Impossível não refletir sobre a troca de papel com os anos.
A retribuição.
Para minha surpresa, essa foi uma das últimas fotos dos dois.
Um registro espontaneo, no cantinho na sala. Selando o amor eterno.
Photographer
Fernanda Toigo
São Paulo | Brazil
Hora do banho.
Deixei minha roupa na pia, e fui correndo pegar o celular que não cansava de apitar.
Que sorte a minha estar com o celular nas mãos.
Ao me virar vejo essa cena.
Meio Ariel. meio "Meu primeiro sutiã" (dedurei minha idade, entendedores entenderão).
Referências conscientes ou não á parte, vejo o reflexo da menina sonhando em em ser mulher.
A fotógrafa, vendo a fotografia, vê o reflexo de quanto sou espelho.
O espelho, do espelho, do espelho.
Photographer
Fernanda Toigo
São Paulo | Brazil
Crianças não são só alegria.
Como fotógrafa procuro aquilo que os olhos observam tanto, que já não veem mais.
Ela provavelmente não lembraria do bico de fome esperando pela comida na praça de alimentação do shopping.
Mas eu quero que ela lembre: da inocência,
da falta de pudor,
do não ter que ser assim ou assado.
Por alguns segundos respiro fundo e me pergunto:
Eu quero que ela se lembre ou eu quero me lembrar de quando eu era assim?
Que vc não se esqueça, e eu me lembre.
Da fotógrafa para a fotografada.
Photographer
Laura Spohr Batista
Rio Grande do Sul | Brazil
A Júlia cresce acompanhando de perto a rotina da família na pecuária leiteira, em Iraí-RS. Ela é a fiel companhia da mãe, Elenara, que cuida da ordenha e leva a silagem para alimentar as vacas.
Entre idas e vindas, Júlia observa, aprende e participa. Quando alguma vaca está em tratamento, o leite separado é armazenado em garrafas pet e essa tarefa já ganhou a ajudinha especial dela. É nessa hora que os gatinhos aparecem, prontos para aproveitar o lanche.
Fotografar a pequena Júlia nesses instantes tão simples, mas tão cheios de vida, me fez voltar no tempo. Lembrei das histórias que meus pais contam e das tardes em que eu ficava imóvel, observando minha vó ordenhar. Tempos depois, quando ela adoeceu, a vaca foi vendida. Eu só aceitava beber leite se me dissessem que era dela.
Quando meus pais trocavam de fornecedor, inventavam que o antigo tinha vendido a vaca para o novo. Não era verdade… mas a minha alegria era real: eu acreditava que ainda bebia o leite da vaca que tinha sido da minha vó. O leite era a minha ligação com ela, que já tinha partido.
Como eu queria ter uma fotografia, de uma única tarde, para matar a saudade desse momento que hoje só vive na imaginação.
E é por isso que fico tão feliz em fotografar a Júlia agora. Porque sei que, no futuro, ela terá mais do que lembranças soltas na memória: terá imagens capazes de levá-la de volta a esse tempo com a mãe, os animais e a infância. Exatamente como tudo era.
Photographer
Paula Dau
Rio de Janeiro | Brazil
As Novas Perspectivas do Plástico: Ciclos de Vida e Morte
A sociedade do consumo diante da cultura do descartável leva-nos ao encontro da invisível onipresença do plástico que transformou-se em uma tendência, resistindo e persistindo devido ao interesse econômico, já que o próprio "capitalismo gera um impulso de morte paradoxal, pois leva a vida à morte para a que a vida viva" (HAN, 2021, p. 20). Nesta dissonância, nossas práticas, enquanto atores sociais, conduzem-nos a adquirir de forma rápida e consumir de forma fácil como símbolo de uma vida moderna, impulsionando-nos ao ato de nos enterrarmos vivos em busca da sobrevivência. Esta dita "sobrevivência" transforma o plástico em um problema caro e destrutivo, descartado e desprezado a uma velocidade que a natureza não consegue absorver. Diante deste cenário, vivemos narrativas paradoxais, que geram sombras sobre as luzes na incerteza crescente sobre qual caminho seguir.
HAN, Byung-Chul. Capitalismo e impulso de morte: Ensaios e entrevistas. 1. ed.Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2021.
Photographer
Paulo Henrique Correia Araujo
Paraná | Brazil
Ele entrou na igreja como noivo, mas carregava muito mais do que um terno bem passado e o nervosismo do grande dia.
Nas mãos, uma fotografia. No coração, uma ausência impossível de ser preenchida.
Oito dias antes do casamento, a vida o colocou diante da despedida mais dura: a de sua mãe. E mesmo assim, ele seguiu. Não porque fosse fácil, mas porque o amor que o formou também o ensinou a ser forte.
Essa imagem não é apenas um registro.
É um grito silencioso de coragem.
É a prova de que o amor não termina com a morte.
É a presença que continua, mesmo quando o corpo já não está.
Ao atravessar aquele corredor, ele não caminhava sozinho. Caminhava com todas as memórias, conselhos, abraços e orações que ela deixou. Caminhava com a mulher que o ensinou a ser quem ele é, agora homem, agora esposo.
Esse momento eternizado nos lembra que perseverar não é não sentir dor, mas seguir apesar dela. Que honrar quem amamos é permitir que eles continuem fazendo parte da nossa história, mesmo quando a saudade aperta.
Essa foto é sobre luto, sim.
Mas, acima de tudo, é sobre amor, fé e força.
É sobre transformar a ausência em presença eterna.
É sobre escolher continuar e amar, mesmo quando o coração está em pedaços.
Algumas fotos não se explicam.
Elas se sentem.
Photographer
Paulo Henrique Correia Araujo
Paraná | Brazil
Minha avó estava frágil (sim é minhas avó no casamento da minha prima), o corpo cansado, os passos lentos.
Mas o coração… ah, o coração estava inteiro ali.
Ela fez questão de estar.
Fez questão de ver sua neta casar.
Como quem diz, sem palavras: “eu cumpri minha missão.”
Naquele olhar havia despedida, havia orgulho, havia paz.
Um sentimento que só quem construiu uma família com amor conhece.
Um legado que não se ensina, se vive.
De mulheres fortes, que sustentam gerações mesmo quando o corpo já pede descanso.
Como fotógrafo, eu registrei.
Mas como neto, eu senti.
Senti o peso e a beleza daquele instante.
Sabia que não era apenas o casamento da minha prima.
Era a continuidade de uma história.
Era o amor passando de mãos, de ventre, de coração.
Pouco tempo depois, ela partiu.
Mas essa imagem ficou.
E mais do que isso, ficou o legado.
Porque algumas pessoas não vão embora.
Elas permanecem na família, nos gestos, nas escolhas…
E as fotografias que eternizam tudo aquilo que o tempo não pode levar
Photographer
Paulo Henrique Correia Araujo
Paraná | Brazil
Essa fotografia não é só sobre lágrimas.
É sobre coragem.
O choro dele, ao ver a noiva atravessar a porta da igreja, carrega muito mais do que emoção.
Carrega escolhas. Renúncias. Silêncios.
Carrega um amor que decidiu esperar, mesmo quando o mundo dizia para não esperar.
Um amor que escolheu a castidade, a fé, o caminho mais difícil e, por isso mesmo, o mais verdadeiro.
Enquanto a sociedade ensina pressa, eles escolheram profundidade.
Enquanto tudo gritava “agora”, eles confiaram no tempo de Deus.
E naquele instante, quando os olhos se encontraram, tudo fez sentido.
As lágrimas caíram porque o coração reconheceu que valeu a pena.
Valeu cada não.
Valeu cada luta.
Valeu acreditar quando parecia loucura.
Essa imagem é a prova de que o amor, quando nasce da fé, dá força, dá coragem e faz o coração falar mais alto do que qualquer voz contrária do mundo.
Photographer
Tiago Magdantz
Rio Grande do Sul | Brazil
Ela ainda não sabe, mas esse retrato simboliza um dos passos mais importantes da sua vida.
Um momento que atravessará gerações, como um primeiro grande passo, de um caminho ainda incerto, mas cheio de sonhos.
De uma vida que não é feita somente de chegadas, mas de permanência. Permanecer acreditando, tentando. Permanecer de pé, mesmo quando o mundo não acredita.
Um instante que não celebra um fim, mas sim um instante de transformação.
Escolher avançar, mesmo quando o mundo pesa, e carregar em si a esperança, como alguém que segura algo frágil, mas ainda assim essencial.
Compreender que o caminho continua, que sonhos não pedem pressa, pedem constância. E que todo começo carrega, em silêncio, a promessa de ir além.
Photographer
Tiago Magdantz
Rio Grande do Sul | Brazil
No dia do casamento deles, os noivos me deram a missão de levar os retratos de seus pais, que partiram antes de poder presenciar um dos dias mais incríveis de suas vidas.
Durante todo o casamento, senti que suas presenças estavam ali.
Os retratos colocados com cuidado lembram isso o tempo todo. Um sorriso emoldurado, um olhar conhecido, uma presença silenciosa que aperta o peito e aquece o coração ao mesmo tempo.
É como se eles estivessem assistindo tudo de um cantinho discreto, orgulhosos, emocionados, do jeito que sempre foram.
Dói pensar que eles não puderam ver esse dia. Mas conforta sentir que, de alguma forma, fazem parte dele. Em cada lágrima escondida, em cada lembrança.
Photographer
Vanessa Cristina
Rio Grande do Sul | Brazil
O céu pesado, carregado de silêncio, reflete o encanto submerso. A água que cobriu ruas, árvores e caminhos mudou vidas para sempre.
O letreiro, ali silenciado, permanece. Não anuncia, não convida. Apenas resiste.
Há uma ironia dolorosa nesse contraste, sentida por quem atravessou os dias cinzas. O encanto não habita mais a paisagem. Vive na memória do que foi e na esperança do que ainda pode ser, de que um dia tudo volte a ser Encantado.
Esta fotografia nasce dentro da maior tragédia climática do Rio Grande do Sul. Um gesto de permanência e ressignificação, porque Encantado, mais do que o nome de uma cidade, é aquilo que resta quando a água recua.