Fotógrafo(a)
Alexandre Grand
Rio de Janeiro | Brasil
O dia em que encontrei Frida em Oaxaca, Mexico. Agosto de 2025
Foi numa tarde de calor preguiçoso, quando o vento trazia cheiro de mezcal e buganvílias caíam como confetes sobre as ruas de pedra. Eu caminhava sem pressa pelo mercado de Oaxaca, procurando rostos e histórias, quando a vi sentada sob uma sombrinha azul, o olhar firme e a flor amarela nos cabelos.
Por um instante, o tempo se dobrou. Frida Kahlo estava ali. Não a dos museus, nem a dos livros — mas uma Frida viva, inteira, pulsante. O mundo parecia tê-la devolvido por descuido, apenas para que eu a encontrasse.
Aproximei-me devagar, o coração batendo como se a câmera em minhas mãos também respirasse.
— Frida… posso fazer um retrato seu? — perguntei, sem saber se ela entenderia minha língua, meu espanto, ou meu desejo.
Ela sorriu. Um sorriso curto, carregado de ironia e ternura.
— Retrato? — disse — Me pintei tantas vezes porque era a pessoa que eu mais conhecia. Mas hoje… talvez eu queira ser vista por outro olhar.
E ficou em silêncio. Apenas se virou para a luz que atravessava o tecido azul do toldo. Eu cliquei. Uma única vez.
Naquela fração de segundo, senti que ela voltava a existir — não como memória, mas como presença. E quando abaixei a câmera, ela já não estava mais.
Alguns dizem que foi alucinação do calor, outros que Oaxaca tem o poder de abrir portais.
Eu só sei que, naquele dia, fotografei um sonho.
E o nome dele era Frida Kahlo.